
Caetano em sua fase cabelos livres
Desde criancinha eu escuto Caetano Veloso. De início não necessariamente por uma escolha pessoal, mas pela paixão de minha mãe pelo então rapaz baiano e magrelo.
Uma das lembranças mais vivas que tenho da minha infância é de minha mãe fazendo faxina na casa com o som nas alturas e cantando alegremente canções como “Eu sou Neguinha”, “Alegria, alegria” e “Sampa”.
Peguei gosto pelo rapaz e, embora na adolescência tenha passado por uma fase rebelde de rejeitar todo o gosto musical que me foi herdado pela influência dos meus pais, nunca deixei de escutá-lo, mesmo que ocasionalmente.
Caetano é um mito na Bahia. A gente o ama e odeia ao mesmo tempo. Ama por tudo que ele representa pra cultura brasileira, pelo movimento libertador que a Tropicália foi, pela poesia de suas músicas e pela extrema manifestação de indignação de um brasileiro, em outras. E a gente também o odeia porque Caetano fala besteiras que são tão próprias dele que a gente já o odeia perdoando.
Sempre tive vontade de ler seu livro “Verdade Tropical”, mas todas as pessoas com quem eu comentava isso meio que me desencorajavam – “leitura difícil”, “livro complexo”, etc.
Mas, pra iniciar esse ano, queria um desafio literário e rejeitei as não-recomendações, encarei o verdinho de sua capa e me joguei na leitura de “Verdade Tropical”.
E vim aqui para discordar daqueles que taxaram esse livro de uma leitura complexa.
Ler Caetano não é fácil, é verdade. Não é como ler Machado de Assis ou José de Alencar. Seu estilo é rebuscado, ousado e incerto, mas também apaixonante. Esse livro é uma verdadeira obra-prima para quem quer saber mais um pouco sobre a música e história brasileira das décadas de 1960-1970. E, pra mim, tem sido uma reafirmação de minha admiração por tudo que Caetano representa pra música popular brasileira e, mais ainda, pela descoberta de como me sinto orgulhosamente brasileira – parte desse caldo cultural tão rico e genial, dessa história rica, por vezes, cruel e humilhante, mas tão determinadora do nosso estilo brasileiro de ser. É um resgate da vontade de dizer com a boca cheia de que, apesar de tudo, sou brasileira.
E re-apaixonada por Caetano, depois de ler seu livro, ando me re-apaixonando por suas músicas. Assim como também, me re-apaixonando por Gil, Bethânia e Gal – tão amados por ele, mas tão amados, que a gente passa a amar como se já o conhecêssemos desde nosso nascimento – o que, em parte, não deixa de ser verdade, já que nasci em 1981 quando os quatro baianos já eram um sucesso nacional.